quinta-feira, 18 de abril de 2013
O'diamar
Amar-te,
amar-te pela noite dentro
como suspiros presos nas margens de miragens
porque a chama que nos consome
integra todo um antídoto venenoso
dentro de um ciclo vicioso.
Odiar-te,
afastar-te de mãos leves e braços caídos
como amantes de livros velhos
esquecidos em clavículas arranhadas
pelo sabor do suor que te escorre pelo corpo
em viagens desesperadas.
Fiquemos apenas comprimidos no desejo,
passageiro do comboio da madrugada,
louco como os mitos da solidão
e faminto como cadáveres canibais
que somos sem confessar.
quarta-feira, 3 de abril de 2013
Partir na noite
Wo bist du?...
Wann kommst du?...
No crepúsculo dos desentendimentos
aguardo as flores de gelo chegarem
nos precipícios do silêncio
e pelo gesto impraticável
que um dia se tornou pecaminoso;
As capas negras da meia-noite
cobrem a lua em quarto crescente
após os infortúnios dos jardins esquecidos
e a palavra desconhecida que procuramos;
O negrume da noite
e as luzes de barcos abandonados
mostram malas vazias
deixadas à porta da fuga:
mais vale partir
que respirar a incerteza da permanência.
domingo, 31 de março de 2013
Vagueadora da mente
I
Escuto os segredos das paredes
e durmo nas portas dos desconhecidos;
as âncoras da incógnita
prendem-me à noite
Quantas angustias se perderam
desde que partiste?
Já não há barcos no cais
e prometeste-me que voltavas.
II
Perdi-me no tempo,
mais uma vez,
à espera das prováveis chamas
que levassem a minha incapacidade de ser:
descarrilei,
morri para outro mundo.
III
A escrita
é a minha solitária amiga
das noites de Sábado,
depois de todos os bares fecharem
e eu saber que já nada de traz de volta...
e eu perdi o chapéu da consciência!...
IV
Entrego-me agora
aos trilhos do frágil veneno
que me fizeste amar,
sem olhar para casas vazias
nem vidas sem sentido;
Parti com um ramo de rosas
e regresso para te devolver os espinhos.
Madrugada
Ouço a chuva cair...
ela bate-me na janela
como pequenos fragmentos do que sou,
irrelevante perante os venenos que bebi,
acesa em todos os meus pensamentos
A Primavera dos sentimentos
é apenas um mito para esquecer
em todos os céus que me caíram aos pés
enquanto me esquecia para beber
e o tempo passava
como silêncios destemidos
Todas as cadeiras onde me sentei
e os sofás onde adormeci,
carregam sonhos escondidos
em que nunca dormi,
para além dos sonhos que nunca sonhei
Na verdade,
todas as canetas falam,
escrevem
e ardem inexplicavelmente
como brisas de ar puro
que invadem os cigarros...
A realidade é um ponto dimensional
no qual pensamos nos encaixarmos
sem nada entendermos:
tudo é surreal,
incluindo o facto de estarmos vivos
E não,
não sustenho a respiração envenenada
em cada livro que não leio:
folheio as páginas da vida,
enroladas em sobriedade,
de forma a morrer novamente.
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